TRANSPOSTO DO JORNAL GAZETA DO OESTE DOMINGO,
06/06/2010, CADERNO MOSSORÓ PÁGINA 5 DA COLUNA DÉJÁ VU DO DOUTOR MILTON MARQUES
Fenômeno ou milagre
Eureka é uma palavra quase sempre usada para designar criação, nascimento, ideia inicial, resposta a uma pergunta há muito procurada pelo consciente. Padre José Luiz, em Natal, registrou sua empresa de comunicação com esse nome. Exercitou marketing comercial, criou slogans, planejou debates, projetou campanhas políticas. Por sinal, o Rio Grande Norte perdeu muito com o falecimento de Zé Luiz, uma das suas maiores inteligências desse torrão potiguar. Saudades. Nas enciclopédias, o termo Eureka é escrito com h - heureca e significa "achei". Sua origem tem um certo charme histórico. Exemplo de Arquimedes
No século III a.C., no território de Siracusa, habitou um cidadão que se destacou por se tornar um grande matemático. Seu nome? Arquimedes. Certa vez ele foi convidado pelo tirano Hiero para que determinasse a pureza da coroa de ouro do reino suspeita de ter sido adulterada com prata pelo antigo ferreiro da corte. Arquimedes fora o autor da "lei do peso específico dos corpos", norma conhecida entre nos como "Princípio de Arquimedes". A ordem do monarca deixou o matemático intrigado. É que embora ele conhecesse o peso específico do ouro por unidade de volume, tratava-se de prestar exame em uma coroa, objeto sagrado, que não poderia ser transformado a fogo para depois ser moldado como fazia com seus cubos mensuráveis.
Arquimedes II
Passou dias pensando. Nenhuma solução. Depois de semanas com tentativas fracassadas, o calculista tomou uma decisão. Afastar-se do problema indo a um clube social, chamado na época de banheiro público. Lá se sentiu totalmente descontraído e sem nenhum propósito ficou simplesmente olhando os banhistas que entravam e saíam das banheiras individuais. Observou que a água subia em maior volume à medida que um corpo maior entrava no recipiente. De repente, veio a inspiração: por que não usar o mesmo processo de imersão com a coroa? Raciocinou: o ouro deslocará menos água de um mesmo recipiente do que a prata, isto é, a água subirá menos com a imersão de uma coroa de ouro puro do que com a imersão de uma que contivesse prata. Como notável matemático, munido de papel e lápis, fez de imediato as devidas projeções entre peso e volume e sentiu haver descoberto a solução. Possuído de uma alegria infinda, não se conteve. Num impulso só, mesmo de calção, levantou-se rapidamente e saiu do clube correndo. Atravessou a rua, ganhou outras avenidas e eufórico, gesticulando muito, à medida que corria, gritava a todo pulmão: "Eureka! Eureka! Eureka!. (seria: achei, achei, achei!)
Eureka - Satisfação
A rigor, o termo "eureka" não parece ser sinônimo de criação, nascimento, descoberta. É o sentimento de prazer experimentado por alguém no momento em que encontra a solução sobre um exaustivo problema. Não é a obra em si, feito realizado. É o sentimento experimentado como consequência do achado.
Por outro lado, o episodio de Arquimedes nos ensina outra lição. Diante de determinados problemas a saída pode está em nos distanciarmos um pouco deles. Afastar-se um pouco do problema. Aliás, quem tem um livro excelente sobre o assunto é o famoso projetista de software americano, Rick Tendy. Já no final da sua obra ele escreve textualmente: "Quase sempre, eu não consigo resolver um problema no momento real em que tento resolvê-lo".
Lição para hoje
Há quem recomende que diante de um problema persistente o melhor é entregar o assunto, por algum tempo, ao inconsciente. Naquele campo cerebral há um instituto chamado "Talento do Inconsciente". Esse é indiscutível, todos grandes parapsicólogos concordam. Pois bem, é por lá que algumas vezes aparece a obra fantástica. A história está cheia de exemplos sobre o fenômeno. Por espaço curto, nessa coluna, vejamos dois exemplos. Banting, o descobridor da insulina, encontrou a solução para o diabetes em uma noite em que dormia e teve uma premonição, espécie de sonho. Levantou-se a seguir, desceu a sua escrivaninha e redigiu uns rabiscos. No dia seguinte não sabia quem escrevera aquilo. Mesmo assim seguiu a risca o que recomendava o texto manuscrito, e ao manipular o pâncreas seco de um cão sacrificado, dele extraiu uma substância que até hoje continua tendo um valor extraordinário para a humanidade.
Serotonina
Dr. Kuirry, descobridor da amitriptilina, primeira substância descoberta para combater a depressão, revela que seu desafio foi assistir a sua esposa doente e ele como médico e pesquisador de nome, não saber como curá-la. Passou dias e noite tentando solução e nada. Um dia quando estava selando o seu cavalo para passear e se descontrair um pouco, teve "um estalo" feliz e seguiu diretamente para seu laboratório. Eureka, gritaria no dia seguinte. Bom, hoje já há produtos muito mais eficientes para a depressão, entretanto naquela época a descoberta do bioquímico foi genial. Eu mesmo como psiquiatra prescrevi e tenho certeza que salvei muitas vidas que estavam à beira de um suicídio, pura ação da amitriptilina.
Esperar um pouco
A expressão "tirar o cavalo da chuva, segundo Márcio Cotrim em seu livro O Berço das Palavras, surgiu do fato de que não faz muito tempo, no interior, o meio de transporte mais comum era o cavalo. Não enguiçava, não parava por falta de combustível e ainda indicava a intenção do visitante em demorar ou sair logo ao chegar em uma casa. Se amarrava o bicho na frente dela, era sinal de breve permanência; se o levava para lugar coberto, protegido da chuva e do sol, ficava claro que pretendia demorar na visita. As vezes o visitante descia do animal com o propósito de demorar pouco, deixando o cavalo exposto ao sol. Mas, com o tempo, o papo ia se espichando, interessante, e quando a visita dava sinais de ir embora, o anfitrião dizia: "Pode tirar o cavalo da chuva", ou seja, leve a montaria para local abrigado que você ainda vai demorar. Com o passar do tempo, segundo o mestre, a expressão ganhou um diminutivo, hoje se diz: "Pode tirar o cavalinho da chuva" - espere, vai demorar ou pouco. Chagaremos a solução. Não?
Aos jovens
Portanto, na vida, é ter sempre esperança. Nunca se desfazer dos sonhos. Confiar na criatividade, própria de cada ser. O talento do inconsciente existe e de cada um poderá nascer o inesperado. E a qualquer momento. Nunca esquecer que o constante esforço, buscando a solução é importante. Receber a oferta do inconsciente sem o permanente esforço do consciente é impossível. Só com vida descontraída, sem preocupação, ansiedade e esforço, o fenômeno não acontece. E poderá acontecer sim, mas não será fenômeno e sim milagre. Algo muito mais difícil.
UnP Potiguar
Parabéns a UnP pelo aniversário. Estou saindo para assistir a palestra de Bill Clinton, em Natal. Agradeço ao convite. Voltarei ao assunto.
FONTE DA CÓPIA: http://www.gazetadooeste.com.br/dejavu.php
Nenhum comentário:
Postar um comentário